Sessão da Consciência Negra teve homenagens e participação artística de estudantes da Escola 9 de Julho

Sessão da Consciência Negra teve homenagens e participação artística de estudantes da Escola 9 de Julho

Sessão da Consciência Negra teve homenagens e

participação artística de estudantes da Escola 9 de Julho

A Sessão Solene em homenagem à Consciência Negra foi realizada, pela sétima vez, na Câmara de Taquaritinga, na noite de segunda-feira, 18 de novembro, com o objetivo de reverenciar a presença dos negros na sociedade local. Cada vereador indicou uma pessoa para receber o certificado da Consciência Negra, que simboliza um agradecimento ao legado de cultura e trabalho empreendido em favor do município.

O vereador Angelim Barbeiro discursou em nome dos vereadores, contando uma história que remete ao passado da comunidade negra em Taquaritinga. Citando uma pesquisa do professor Arnaldo Ruy Pastore (falecido em fevereiro), ele disse que nos anos 1920/1930, os negros se reuniam em baixo de uma paineira no largo onde mais tarde foi construída a Matriz de São Sebastião. “Ali aconteciam as rodas de samba, que estão na origem do nosso Carnaval”, afirmou.

Os estudantes Layslla Moreira e Malkolm Roms, da Escola Estadual 9 de Julho, apresentaram uma leitura dramatizada do texto “Deus é negro”, de autoria de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, frade dominicano, jornalista e escritor brasileiro. O professor Lucas Luís Novaes fez uma participação especial, tocando o agogô. O presidente da Câmara, Beto Giroto, agradeceu à colaboração da diretora da escola, Mireli Sanches Matheus, representada na sessão pela coordenadora pedagógica geral, Ketriri Cristina Belentani Buzolin, e aos professores Ana Paula Romano, Marina Campopiano Bertolo e Elaine Aparecida Silva de Oliveira.

Em seguida, os homenageados foram chamados, um a um, ao plenário para a entrega do certificado. O mestre de cerimônia, Auro Ferreira, leu um resumo biográfico dos indicados para que a plateia pudesse conhecer um pouco de suas histórias de vida. Foi uma solenidade emocionante, que contou com a presença do prefeito Vanderlei Mársico, da promotora de Justiça Dra. Daniela Baldan Rein, da secretária municipal de Gestão, Dra. Patrícia Mársico Gibertoni, entre outras autoridades que compuseram a mesa principal.

Os homenageados e os vereadores que os indicaram foram: Berenice Joana D’Arc da Silva (vereador Angelim Barbeiro), Francisco de Assis Araújo, o Gabozzo, (Cido Bolivar), Carlos Eduardo Dias dos Santos (Dr. Denis Machado), Avelina da Conceição Pereira (Genésio Valensio), Dimas Benedito de Oliveira (Gilberto Junqueira), Marco Aurélio Valentin, (Marcos Bonilla), Anderson da Silva Santos (Juninho Previdelli), Maria José Manoel (Wadinho Peretti), Romilson Martins de Matos (Valcir Zacarias), Joel Dongui (Dr. Eduardo Moutinho), Roseli Teresinha Pereira de Oliveira Godoy (Prof. Caio Porto), Leidjane Alves dos Santos (Tonhão da Borracharia), Eder Alessandro Mateus (Rodrigo De Pietro) e Carlos Roberto dos Santos, Coca (Beto Girotto, presidente da Câmara).

Texto da leitura dramática apresentada pela Escola Estadual 9 de Julho

DEUS É NEGRO

Trago no sangue uma África. O reboar de tambores, a ponta afiada de lanças, os riscos coloridos realçando a pele e, na boca, o gosto atávico dos frutos do Jardim do Éden. Na alma, as cicatrizes abertas de tantos açoites, o grito imperial dos caçadores de gente, os filhos apartados de seus pais e os maridos de suas mulheres, o balanço agônico da travessia do Atlântico e, nos porões, a morte ceifando corpos engolidos pelo mar e triturados pelos dentes afiados dos peixes.

Sou filho de Ogum e Oxalá, devoto de Iemanjá, a quem elevo as oferendas de todas as dores e cores, lágrimas e sabores, o choro inconsolável das senzalas, a carne lanhada de cordas, os pulsos e os tornozelos a ferros, a solidão da raça, o ventre rasgado e engravidado pela feroz pulsão dos senhores da Casa Grande.

Restam-me, na cuia de madeira, as sobras do suíno descarnado e, enquanto a mesa colonial saboreia o lombo, rasgo peles e orelhas, refogo em banha o feijão, fatio em paio as carnes, frito linguiças e torresmos, apimento e condimento, e me empanturro. No alambique, colho a seiva ardente da cana, e me transporto aos ancestrais, às savanas e florestas, ao tempo de imensurável liberdade.

Nas noites de Casa Grande vazia e capatazes bêbados, enfeito o meu corpo de tinturas e, espelhado no reflexo da Lua, adorno braços e pernas, cubro-me de colares e braçadeiras e, ao som inebriante do batuque, danço, danço, danço, exorcizando tristezas, esconjurando maus espíritos, imprimindo ao movimento de todos os meus membros o impulso irrefreável do voo do espírito.

Sou escravo e, no entanto, senhor de mim mesmo, pois não há ferrolho que me tranque a consciência nem moralismo que me faça encarar o corpo com os olhos da vergonha. Faço do sexo festa, do carinho, liturgia, do amor, bonança, multiplicando a raça na esperança de quem fertiliza sementes. Dou ao senhor novos braços que haverão de derrubá-lo de seu trono.

Comungo a exuberância da natureza, as copas das árvores são meus templos, do fogão de lenha trago as ofertas, em meu ser trafegam, céleres, cavalos alados, e sigo o mapa traçado pelos búzios, que me ensinam que não há dor que sempre dura, mas o verdadeiro amor perdura. Tão povoado é o céu de minhas crenças que não rejeito nem mesmo a santeria do clero. Antes, reverencio o cavalo de são Jorge, transfiro aos altares a devoção aos meus orixás, lanço ao rio a Virgem negra na fé de que, entre tantas brancas, trazidas no andor do senhor de escravos, chegará o tempo em que a minha será Aparecida e, a seus pés, também os joelhos dos brancos haverão de se dobrar.

Sou liberto e, no fundo das matas, recrio um espaço de liberdade, defendendo com espírito guerreiro o meu reduto de paz. No quilombo, volto à África, resgato a força mistérica do meu idioma, celebro reisados e congadas, o canto livre ecoando no coro da passarada, as águas da cachoeira expurgando-me de todo temor, as árvores em sentinela cobertas de mil olhos vigilantes.

Cidadão brasileiro, ainda luto por alforria, empenhado em abolir preconceitos e discriminações, grilhões forjados na inconsciência e inconsistência dos que insistem em fazer da diferença divergência e ignoram que Deus é também negro.

Íntegra do discurso do vereador Angelim Barbeiro

“Boa noite a todos. Em nome dos vereadores, quero expressar aqui as mais devotadas homenagens aos presentes, que vieram prestigiar uma noite especial, uma noite em que reverenciamos cidadãos da comunidade negra. Homens e mulheres que ajudaram e continuam ajudando Taquaritinga em sua jornada de crescimento. Em sua maioria, nossa plateia é formada por familiares dos homenageados. É a vocês que me dirijo nesse momento: sintam orgulho por essas pessoas escolhidas, porque elas representam muito não só em vossas vidas, como também para a sociedade, cada uma a seu modo, cada uma em sua área de atuação. Aos homenageados e familiares, peço uma calorosa salva de palmas.

Ao olharmos para trás, lá no passado, temos grandes histórias e memórias. Por isso, gostaria de reviver um acontecimento que está na gênese da nossa comunidade negra. Esse acontecimento, que está ligado à cultura dessa gente laboriosa e festiva, faz parte da pesquisa feita pelo saudoso professor Arnaldo Ruy Pastore, compilada pelo doutor Milve Peria.

Há certos símbolos que, embora não existam mais, são sempre lembrados pelos moradores mais antigos. Nos anos 1920 e 1930, a cidade praticamente chegava até a Rua Duque de Caxias ou Visconde do Rio Branco.

Os símbolos daquela época eram três enormes paineiras. A primeira ficava no largo do cemitério, a segunda atrás do campo de futebol, hoje estádio municipal Antonio Storti. E a terceira onde hoje é o largo da Matriz de São Sebastião. As pessoas marcavam seus encontros tomando como referência uma dessas paineiras.

Aproveitavam a sombra amiga e, quando estavam floridas, apreciavam a beleza de seu colorido, o perfume das flores e o canto suave dos pássaros.

Era exatamente em baixo da copa frondosa da paineira da matriz onde os negros se reuniam nos dias de festa para discutir coisas referentes à comunidade e também para animadas batucadas ou rodas de samba até altas horas da noite.

Bem próximo à batucada, sempre havia uma pequena fogueira, não para aquecer os participantes, pois já eram aquecidos naturalmente, pois tinham muito samba no pé.

Qual era então a finalidade da fogueira? Os instrumentos de percussão – pandeiro, surdo, tamborim e caixa de repique – eram confeccionados com pele de gato ou de cabrito. À medida que o instrumento ia sendo utilizado, a pele se dilatava, prejudicando o som produzido. Por isso, tinha que ser aquecido e esticado para voltar ao normal.

Todos os anos faziam grandes churrascos para toda a comunidade, onde a carne de carneiro era muito apreciada.

Conta a história que, naquela época, o líder negro local era o Mestre Firmino. Faziam parte também: seu Bernardino, seu Remo, seu Mané, Robertinho, Severino e as sambistas Marcolinha, Chica Cabeça de Touro e Caneleira, assim chamada porque trazia sempre um pano branco amarrado na canela.

Pois bem, senhoras e senhores, a tradição e a história da comunidade negra taquaritinguense começou debaixo da grande paineira, no Largo da Matriz de São Sebastião. Esses encontros, meus amigos, certamente estão na origem do nosso carnaval.

E, para finalizar, trago aqui um pequeno trecho do livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Essa obra é uma psicografia de Chico Xavier, ditada pelo espírito de Humberto de Campos. O tema “Os negros no Brasil” ganhou um capítulo especial e muito bonito nessa obra, que fala sobre como a espiritualidade superior preparou o que convencionamos chamar de descobrimento do Brasil. Na verdade, nada teve de ocasional, assim como a junção de várias nacionalidades em nossa terra abençoada, a Pátria do Evangelho, não foi uma mera ação do destino. Mas é entendida como uma consagração ao propósito de elevar nosso Brasil à condição de Coração do Mundo.

Assim concluiu Humberto de Campos, utilizando a mediunidade de Chico Xavier: “Foi por isso que os negros do Brasil se incorporaram à raça nova, constituindo um dos baluartes da nacionalidade, em todos os tempos. Com as suas abnegações santificantes e os seus prantos abençoados, fizeram brotar as alvoradas do trabalho, depois das noites primitivas.

Na Pátria do Evangelho têm eles sido estadistas, médicos, artistas, poetas e escritores, representando as personalidades mais eminentes. Em nenhuma outra parte do planeta alcançaram, ainda, a elevada e justa posição que lhes compete junto das outras raças do orbe, como acontece no Brasil, onde vivem nos ambientes da mais pura fraternidade.

É que o Senhor lhes assinalou o papel na formação da terra do Evangelho e foi por esse motivo que eles deram à raça branca, desde o princípio de sua localização no país, os mais extraordinários exemplos de sacrifício. Todos os grandes sentimentos que nobilitam as almas humanas eles os demonstraram e foi ainda o coração deles, dedicado ao ideal da solidariedade humana, que ensinou aos europeus a lição do trabalho e da obediência, na comuna fraterna dos Palmares, onde não havia nem ricos nem pobres e onde resistiram com o seu esforço e a sua perseverança, por mais de setenta anos, escrevendo, com a morte pela liberdade, o mais belo poema dos seus martírios nas terras americanas.

Por toda parte, no país, há um ensinamento caricioso do seu resignado heroísmo, e foi por essa razão que a terra brasileira soube reconhecer-lhes as abnegações santificadas, incorporando-os definitivamente à grande família, de cuja direção muitas vezes participam, sem jamais se esquecer o Brasil de que os seus maiores filhos se criaram para a grandeza da pátria, no generoso seio africano.

Que todos tenham uma ótima sessão e uma boa noite.”